
É talvez a mais importante peça da comunidade judaica local. Quando foi encontrada, Belmonte não tinha local para a expor e o Museu de Castelo Branco recebeu-a. Agora, o Estado não a devolve. Quem visitar o Museu Judaico de Belmonte e quiser ver o mais importante testemunho da longa presença judaica na vila, terá de contentar-se com uma réplica. Será que isso faz algum sentido, quando a epígrafe verdadeira está fechada, algures numa sala, longe dos olhares do público?
SE POR acaso o famoso Indiana Jones fosse judeu, talvez a comunidade belmontense conseguisse convencê-lo a vir resolver este problema. Afinal, a sua especialidade é recuperar tesouros perdidos e entregá-los a quem de direito. Mas deixemo-nos de ficções, porque este assunto é bastante sério.
Em causa está aquela que é, seguramente, uma das mais importantes peças da história judaica de Belmonte: uma epígrafe votiva, datada de 1297, proveniente de uma antiga sinagoga da vila.
Por volta de 1910, enquanto se procedia a escavações arqueológicas nas ruínas da antiga Igreja de S. Francisco, em Belmonte, foi encontrado um bloco de granito com uma inscrição que na altura era imperceptível (em hebraico). Com a ajuda de Samuel Schwarz, foi possível perceber não só a data, como também a mensagem que veiculava, concluindo-se que se tratava de uma epígrafe votiva. Estava ali uma prova irrefutável da longa presença dos judeus em Belmonte – desde a Idade Média.
Mas Belmonte não tinha meios técnicos nem humanos para dar o devido tratamento à peça e por isso foi decidido colocá-la no Museu de Francisco Tavares Proença Júnior, em Castelo Branco, que por essa altura vivia os primeiros anos de existência e no qual a arqueologia se destacava.
Acontece, porém, que o museu albicastrense foi-se transformando e nas última décadas especializou-se, sobretudo, em pinturas e tapeçarias do séc. XVI, tecnologias têxteis tradicionais e bordados. Muito do acervo arqueológico deixou de estar patente ao público, sendo armazenado. Ao que parece, a epígrafe judaica em causa também está “arrumada”.
in "jornal do fundão"